
Você já sentiu que, para alcançar uma nota aguda, precisava “espremer” a voz ou jogar a boca para frente?
Se sim, saiba que você não está sozinho. Esse é, sem dúvida, o erro número 1 no canto popular.
Muitos alunos chegam ao Harmona Vocal com medo real de abrir a boca. O resultado você já conhece: um som preso, estridente e uma garganta que cansa em minutos.
Mas hoje, vou usar uma obra de arte famosa e um conceito de bioacústica do livro Cantonário para te ensinar a liberar seus agudos com segurança.
E a resposta está onde você menos espera: num quadro de 1893.
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Abrir a boca como em “O Grito”
Imagine o famoso quadro “O Grito”, de Edvard Munch. Visualize a boca daquela figura: oval, vertical e extremamente aberta.
Muitos professores usam essa imagem como exemplo do que não fazer, alegando que gera tensão excessiva.
Mas, se olharmos para a anatomia dos agudos, o problema da maioria dos cantores iniciantes é exatamente o oposto: a falta de abertura vertical.
Quando você tenta cantar uma nota aguda com a boca na horizontal (aquele “sorriso tenso”) ou com os dentes quase colados, você está lutando contra a física.
Regra de Ouro: O som agudo é uma onda curta que precisa de espaço para ressoar. Agudo pede espaço vertical. Grave aceita relaxamento horizontal.
Por que temos medo de abrir a boca?
Existe uma tensão natural — e muitas vezes social — que nos faz travar a articulação temporomandibular (ATM). Soltar o queixo lá embaixo pode parecer exagerado ou “feio” no espelho.
Mas lembre-se: a técnica vocal não serve para você ficar bonito enquanto canta; ela serve para o som sair bonito.
No entanto, apenas “derrubar o queixo” não é suficiente. Se você fizer apenas isso, ficará com um som “bobo”, escuro e sem brilho.
É aqui que entra a ciência para salvar sua voz.
A Teoria da “Pele de Tambor” (O Pulo do Gato)
No livro Cantonário, as autoras Valéria Leal e Cyrenne Paparotti trazem um conceito fascinante da bioacústica: a Teoria da Pele de Tambor.
Pense no seu rosto como a pele de um instrumento de percussão:
- Pele Frouxa: Se a pele do tambor está mole, o som é grave, surdo e sem projeção.
- Pele Esticada: Se você estica a pele, o som ganha brilho, agudo e projeção.
Para cantar agudos profissionais, não basta soltar a mandíbula (abrir a boca). Você precisa, simultaneamente, esticar a pele do rosto para cima.
A Anatomia do “Susto”

É aqui que a genialidade do quadro de Munch se revela. Repare nos olhos e nas maçãs do rosto da figura. Eles estão arregalados e levantados.
Ao elevar os músculos zigomáticos (as maçãs do rosto) e abrir os olhos — como numa expressão de susto ou surpresa —, você estica a pele da face.
Isso cria uma superfície mais rígida que reflete melhor as ondas sonoras agudas. Além da acústica, existe uma conexão neurológica: levantar os zigomáticos ajuda a ativar o palato mole e melhora o brilho do som.
Passo a Passo: A Abertura Perfeita para o Agudo
Então, como aplicar isso na prática sem se machucar? Siga este roteiro no seu próximo treino vocal:
- 1. Relaxe a Boca (Gravidade): Deixe o queixo cair suavemente, criando um formato oval na boca. Não empurre com força para baixo; apenas deixe a gravidade agir.
- 2. Ative o “Sorriso Interno”: Levante as maçãs do rosto e as sobrancelhas levemente, como se tivesse visto algo surpreendente.
- 3. Monitore a Tensão: Coloque os dedos na frente da orelha (na ATM). Se sentir dor ou travamento, você está forçando. O movimento deve ser fluido.
Resumo Visual para não esquecer:
- ❌ Errado: Dentes cerrados + Boca horizontal (Som preso).
- ❌ Errado: Boca aberta + Cara de tédio/flacidez (Som opaco).
- ✅ Certo: Boca vertical (mandíbula solta) + Maçãs do rosto altas (Pele de Tambor esticada).
Conclusão: Perca o medo de fazer “careta”
Cantar bem exige liberdade muscular. Se você ficar preocupado em manter uma expressão facial “neutra” o tempo todo, sua voz ficará presa no meio do caminho.
A expressão de “O Grito” — com a boca vertical e os olhos ativos — é, na verdade, um manual de bioacústica pintado em 1893. Use a ciência a seu favor.